Recibos Verdes vs Empresa Unipessoal 2026: o crossover que as calculadoras escondem
Atualizado setembro 2026 · RMMG 920 € (DL 139/2025), IRC PME 15%/19% (Lei 73-A/2025), taxa liberatória 28%, SS 21,4% com isenção parcial 4×IAS · Cifras geradas pelo nosso modelo
O conselho clássico da maioria das calculadoras portuguesas — «a empresa compensa a partir de 4.000-5.000 €/mês» — esconde duas simplificações que mudam o resultado para ti. A primeira: quase todas aplicam a Segurança Social sobre toda a base (21,4% × 70% da faturação), ignorando a isenção parcial de 4×IAS (2.148,52 €/mês em 2026) que poupa ~5.500 €/ano nos recibos verdes. A segunda: nenhuma modela o que muda a decisão de verdade — a percentagem de despesas reais. O nosso modelo completo, com salário de sócio-gerente no mínimo (RMMG 920 €×14) + dividendos, IRC micropyme 15/19% (OE 2026) e retirada a 28%, mostra que a unipessoal só começa a ganhar em zonas muito mais altas do que a regra de bolso — e em alguns casos não compensa nunca.
A matriz completa: faturação 24.000-192.000 € com 20% de despesas reais (2026)
Cada linha: recibos verdes (regime simplificado, coeficiente 0,75 — a AT presume 25% de despesas e não tributa mais, mesmo que gastes mais; SS 21,4% sobre 70% do rendimento, apenas sobre o excedente acima de 4×IAS; IRS progressivo 12,5-48%) vs sociedade unipessoal (salário mínimo de sócio-gerente 920 €×14 + TSU 23,75% empresa + 11% trabalhador, contabilista + conta + IES ≈ 2.080 €/ano; IRC 15% nos primeiros 50.000 € de lucro + 19% no restante; dividendos 100% do lucro líquido com taxa liberatória de 28%). Despesas reais de 20% da faturação pagas do próprio bolso nos dois cenários.
| Faturação anual (mensal) | Recibos verdes líquido | Unipessoal líquido | Unipessoal − RV | Melhor opção |
|---|---|---|---|---|
| 24.000 € (2.000 €/mês) | 16.338 € | 12.186 € | −4.152 € | 🟢 Recibos verdes |
| 36.000 € (3.000 €/mês) | 23.496 € | 18.061 € | −5.435 € | 🟢 Recibos verdes |
| 48.000 € (4.000 €/mês) | 28.373 € | 23.936 € | −4.437 € | 🟢 Recibos verdes |
| 60.000 € (5.000 €/mês) | 32.878 € | 29.812 € | −3.066 € | 🟢 Recibos verdes |
| 72.000 € (6.000 €/mês) | 36.689 € | 35.687 € | −1.003 € | 🔴 Quase empate |
| 84.000 € (7.000 €/mês) | 40.478 € | 41.562 € | +1.084 € | 🔴 Unipessoal (por pouco) |
| 96.000 € (8.000 €/mês) | 44.266 € | 47.184 € | +2.918 € | 🔴 Unipessoal |
| 120.000 € (10.000 €/mês) | 51.729 € | 58.382 € | +6.653 € | 🔴 Unipessoal |
| 144.000 € (12.000 €/mês) | 58.693 € | 69.579 € | +10.886 € | 🔴 Unipessoal |
| 192.000 € (16.000 €/mês) | 79.315 € | 91.974 € | +12.659 € | 🔴 Unipessoal |
O crossover não está num valor fixo: está nas tuas despesas
Esta é a parte que nenhuma calculadora mostra. Se a faturação fosse a única variável, os recibos verdes ganhariam em quase todo o espectro — por causa da isenção parcial de SS (4×IAS) e da presunção de 25% de despesas. A unipessoal ganha quando conseguires deduzir despesas reais acima dos 25% presumidos: cada ponto percentual de despesas reais acima de 25% é lucro que a empresa pode abater ao IRC e que tu, em recibos verdes, pagas na mesma como rendimento. O ponto de equilíbrio por nível de despesas reais (faturação mensal):
- Despesas ~10% da faturação: crossover ≈ 8.800 €/mês (105.900 €/ano) — RV ganha até lá.
- Despesas ~20%: crossover ≈ 6.500 €/mês (77.700 €/ano) — zona da tabela acima.
- Despesas ~30%: crossover ≈ 5.300 €/mês (63.600 €/ano).
- Despesas ~40%: crossover ≈ 4.300 €/mês (52.000 €/ano).
A regra «empresa a partir de 5.000 €/mês» só é verdadeira para freelancers com despesas reais de 35-40% (equipamento caro, subcontratação, viagens). Para um freelancer de serviços que trabalha de casa e tem 10-15% de despesas, a unipessoal só compensa perto dos 9.000-10.000 €/mês — ou nunca, se os custos fixos de 2.000+ €/ano (contabilista, conta, IES) e a TSU de 34,75% do sócio-gerente não forem cobertos pela poupança fiscal.
O erro silencioso das calculadoras: a Segurança Social inteira
A quase totalidade dos simuladores portugueses aplica 21,4% × 70% sobre toda a faturação. A lei (DL 42/87, alterado) é mais generosa: a contribuição só incide sobre o excedente do rendimento relevante mensal acima de 4×IAS (2.148,52 € em 2026), com teto em 12×IAS. Com 60.000 €/ano de faturação, a diferença é brutal:
- Como as calculadoras calculam: 60.000 × 21,4% × 70% = 8.988 €/ano.
- Como é na realidade: base mensal = (60.000/12 × 70% − 2.148,52) → 3.471 €/ano. Economia: 5.517 €/ano só pela isenção parcial.
Esta economia fixa de ~5.500 €/ano move o crossover em ~1.000-1.500 €/mês a favor dos recibos verdes. É por isso que as calculadoras que a ignoram dizem «empresa compensa a 4.000-5.000 €/mês» — e é por isso que muitos freelancers abrem unipessoal cedo demais e passam os primeiros anos a pagar a diferença em contabilista e TSU.
A outra face: quanto custa mesmo a unipessoal
Os custos fixos da unipessoal são reais e existem desde o primeiro mês, mesmo com faturação zero:
- Salário de sócio-gerente 920 €×14 (RMMG 2026, DL 139/2025) = 12.880 €/ano, + TSU 34,75% (23,75% entidade + 11% trabalhador) = 4.476 €/ano. Total 17.356 €/ano de custo salarial só para existir.
- Contabilista certificado (obrigatório por lei): 100-300 €/mês → 1.200-3.600 €/ano.
- Conta bancária empresarial + IES: ~300-400 €/ano.
- Constituição: 360 € (Empresa na Hora) + certificado 75 € + certidão 25 € ≈ 460-700 € iniciais.
Total: ~18.000-21.000 €/ano de custos fixos antes de um cêntimo de poupança fiscal. Nos recibos verdes o custo fixo é zero — e o regime simplificado nem exige contabilista.
Quatro conclusões acionáveis
- Faturação < 5.000 €/mês: fica nos recibos verdes. A unipessoal custa 18.000 €/ano em salário+TSU+custos e a poupança IRC/dividendos não cobre. Com < 15.000 €/ano nem retenção na fonte há (dispensa art. 101.º-B CIRS).
- 5.000-7.000 €/mês: só compensa com despesas reais acima de 25-30%. Compara com a nossa calculadora de recibos verdes: se o líquido a 21,4%×70% com isenção 4×IAS já é alto, espera.
- 7.000-10.000 €/mês e despesas < 20%: zona de quase empate. A decisão é patrimonial (proteção de bens, clientes que exigem NIF de empresa, plano de contratar) — não fiscal.
- Acima de 10.000 €/mês ou despesas > 30%: a unipessoal começa a ganhar de forma consistente — e ganha ainda mais se deixares lucro na empresa (IRC 15/19% sem taxa liberatória na retirada).
Cada cifra deste artigo é gerada pela nossa calculadora de recibos verdes, que modela a retenção na fonte, a Segurança Social com isenção parcial 4×IAS, o IRS progressivo e o IRS Jovem contra o teu bruto mensal exato. Estimativas baseadas nas taxas 2026; confirma sempre com um contabilista certificado.